FREQUENCIA Z: O EBOOK!

Santa Fé, uma cidade interiorana como outra qualquer, que subitamente mergulha num dos piores pesadelos já imaginados: O apocalipse zumbi! Mulheres fatais e dissimuladas, homens corruptos, músicos idiotas, heróis forçados, palhaços psicóticos, idosos desesperados, crianças perdidas...

TEXTOS AUTORAIS

É aqui onde os escritores do UNF deixam a imaginação rolar de verdade. Uma seleção de textos autorais dos mais variados estilos.

FANFICS

Os personagens das HQs, da literatura, do cinema ou da TV reimaginados de uma forma como você nunca viu.

TIRINHAS

A diversão está aqui. Tirinhas criadas pelos nossos autores.

MATÉRIAS, RESENHAS, ARTIGOS

Viu um filme, leu um livro, uma HQ, viu um seriado e quer compartilhar o que achou? é aqui que fazemos isso.

2 de nov de 2012

Corredores Malditos: Você não está sozinho.

Corredores Malditos: você não está sozinho.



Olá, amigos.

É com orgulho que trazemos até vocês nosso segundo ebook: CORREDORES MALDITOS.

Sinopse: Alguns lugares merecem ficar apenas no passado. Este é o caso do Lar Assistencial Maria Dolores, um instituto onde eram aplicados severos tratamentos em pacientes com problemas psiquiátricos. Tratamentos estes que ultrapassavam até mesmo as leis humanas. Cada parede, cada cômodo guarda um segredo doloroso. E uma vez lá dentro, experiências distintas vão levar os visitantes ao extremo. E eles vão descobrir que este terrível lugar, lar de tantos mistérios, não está tão abandonado quanto deveria. Eles não estão sozinhos... e você também não.

Antologia de terror reunindo quatro contos dos autores Alex Nery, Anderson Oliveira, Edson Shadow Jr. e Norberto Silva.


Você pode conferir os contos de "Corredores Malditos" de duas maneiras:

Baixe gratuitamente o ebook nos links abaixo, em PDF ou ePUB:


                     



Ou, se preferir, compre a versão impressa clicando no banner do Clube de Autores logo abaixo:


Divirta-se! Deixe seu comentário!



6 de set de 2012

Antares - Bem vindo a um novo mundo. One-Shot

Essa é uma nova versão de um antigo personagem, que já teve algumas histórias contadas aqui no UNF.
Conheçam um novo mundo de personagens heroicos, outros nem tanto, de sociedades e agências secretas e suas batalhas pelo domínio desse e de outros mundos.
Acredito que a história vai agradar aos nossos queridos leitores, portanto, sem mais delongas, boa leitura.








- Esse filme ficou bom demais!


- Com certeza! Eu não tava botando fé, mas cacete! Filmão!!


- Ah, sei lá... Eu achei que ia ser mais fiel aos quadrinhos...


Em meio às pessoas que também saiam daquela sessão do cinema no shopping, cada um tomando seu caminho, três amigos seguiam para a praça de alimentação.


- Quer fidelidade? Vai ler os quadrinhos Afonso... – um jovem de cabelos castanhos e uma camiseta com um martelo estampado não deixava de olhar às garotas ao redor enquanto retrucava o amigo. – Achei demais todos os heróis reunidos...


- É verdade Afonso... – agora era Caio, um jovem de cabelos negros e bem acima do peso só tinha olhos para escolher a lanchonete onde iriam comer. – Tem gente que não entende que esses filmes não são feitos pros fãs, mas prá massa... E eles precisam ganhar grana.


- Ainda assim achei que podiam ter pego um dos vários arcos dos quadrinhos e adaptar... – o inconformado Afonso percebeu o pouco caso dos amigos e encerrou o assunto, ajeitando os óculos e aproveitando o corpo magro para desviar dos transeuntes. – Ah, quer saber... Dane-se... Depois coloco no meu blog uma resenha com nota baixa... Bora comer?


- Antes eu vou no banheiro... Sabia que não devia ter bebido tanta coca...


- Belê... A gente vai entrando na fila.


Conforme os amigos se afastavam Vitor reparou uma bela morena, parada perto do corredor dos sanitários, os olhos verdes dela atraíram os dele, mantendo fixos neles até que o rapaz acabou observando todas as belas curvas do corpo dela e finalmente entrou no banheiro masculino.


A imagem da garota se fixou na cabeça dele enquanto estava no banheiro e quando seguiu até as torneiras percebeu alguém entrando logo atrás de si, mas não deu maior atenção a um fato tão comum.




- Tá com as mãos bem limpas? – ele se voltou e a mesma morena dos olhos claros estava agora de costas para a porta do banheiro. – Espero que sim...


- Hã... – Naquele momento passaram pela cabeça do jovem todos os filmes pornôs que ele havia baixado na internet, enquanto pensava em algo legal prá dizer. – Moça... Eles tem câmeras por aqui...


Enquanto colocava a mão na cintura, a bela garota dava um sorriso meio de lado, tirando os cabelos de forma lenta e sensual de cima de seus ombros.


- Eu me divirto mais e mais a cada encontro nosso Vitor... – ela deus alguns passos na direção dele, que sentia-se cada vez mais excitado e assustado com aquela situação, mas parou a poucos centímetros o rosto do rapaz. – Eu só vim aqui te falar uma coisa...


- O-o que... – “Merda! Não gagueja seu babaca!” – Q-quer dizer... O que você poderia querer dizer para mim?


- Hibernante... É hora de acordar.


E para Afonso foi como se o mundo explodisse em luz.


XXX


Alguns momentos atrás.


- Você é o novato? Sidney?


Uma pergunta retórica, uma vez que a postura do jovem deixava claro que era a primeira vez que ele estava por ali.


- Hã... Sim... – Ele se colocou de pé, a letargia em que se encontrava passou num instante, agora sua curiosidade iria guiá-lo. – Sou eu.


- Perfeito... Como acontece com todos os novatos, aposto que você não leu nem metade dos documentos que lhe foram enviados... – O recém-chegado começou a andar e fez um sinal para que o outro o seguisse. – Vamos caminhar que vai ser mais fácil para te passar os esquemas dessa agência... Aliás, só para começar, você já entendeu o que fazemos aqui?


- Sim senhor... O projeto Sonhar é um tipo de agência mantenedora da paz mundial, que usa de super agentes para proteger o planeta de invasões de outras dimensões.


- É um bom modo de simplificar as coisas... Novato. – O fato de ser observador, Sidney acreditava, era o principal fator responsável por sua presença ali, portanto enquanto seu guia continuava a falar, o rapaz não conseguiu deixar de reparar no homem à sua frente.


Ele tinha feições orientais e usava um longo sobretudo nos ombros, que cobria uma roupa aparentemente cara, um sóbrio terno risca de giz, mas que deixou aparecer alguns coldres de armas que não pareciam terrestres.


- A primeira invasão da até então desconhecida outra dimensão, ocorreu a vários anos resultando num dos mais famosos casos de acobertamento da história... Já ouviu falar de Chernobyl não é?


- Sim... A cidade que foi abandonada por causa do acidente radioativo da central nuclear construída ali certo? Mas, espera aí... Acobertamento?


- Realmente você não leu os documentos... Bem, resumindo muito, o que aconteceu naquela cidade realmente foi a primeira de muitas invasões, vindas de uma dimensão paralela à nossa... – O outro permanecia aparentemente calmo “Bom... Esse pode vir a ser um bom agente de campo...” após esse pensamento o guia voltou a falar. – A composição química da criatura era tão incomum que assim que entrou em contato com nossa realidade causou uma reação em cadeia que foi acobertada pela farsa de Chernobyl...


Sidney estava boquiaberto, não apenas pelas explicações que lhe eram dadas com um tom tão natural, como alguém que fala dos mais recentes vencedores do campeonato paulista, mas principalmente por causa da sala em que os dois entravam naquele momento.


As paredes estavam ocupadas por imensos telões holográficos mostrando informações e imagens do mundo inteiro, filtradas pelos dedos rápidos de um grupo formado por cerca de trinta técnicos.


No centro, ao redor de um tipo de mesa com vários terminais, outras pessoas estavam concentradas em pequenas telas, além de movimentar maquinários que Sidney nem conseguia imaginar o propósito.


- Após o incidente original, a Agência Sonhar foi criada. – A atenção do novato foi atraída, quando o guia voltou a falar, percebendo só assim como ele havia ficado ao entrar naquela sala. – Um dos primeiros agentes a chegar no local do incidente disse que aquilo parecia um pesadelo, do qual ele queria acordar e assim fomos batizados.


- É sério isso?


- A história varia, dependendo de para quem você pergunta... No final é assim que nos chamamos e após a época da Guerra Fria, a Agência Sonhar ganhou novo significado.


- Guerra Fria?


- Outro acobertamento... Enquanto as potências acreditavam estar decidindo o destino do mundo, por detrás dos bastidores houve uma sangrenta caçada pelos nossos agentes Ômega.


- Ômega?


- Juro que não sei para que imprimimos os documentos... – o guia revirou os olhos em sinal de reprovação. – Os Ômega são nossos agentes com poderes especiais... Após a primeira invasão muitas pessoas ao redor do mundo começaram a apresentar habilidades sobre humanas... eram os agentes perfeitos para enfrentar nossos inimigos, mas de algum modo suas identidades foram descobertas e muitos morreram... Quase foi o fim da Sonhar.


Sidney estava totalmente conquistado pela narrativa, imaginando a honra que estava prestes a sentir, entrando naquela agência. Ele dizia para si mesmo que precisava ser aceito. Precisava.


- Por isso a nova geração é bem diferente da anterior por que...


A frase foi interrompida por estridentes alarmes que tocaram ininterruptamente por cerca de dez segundos.


Tempo exato para toda a Agência Sonhar funcionar como um só organismo.


- Onde está o ponto de invasão? Qual o agente mais próximo? Vamos pessoal! O tempo não para! - O guia ia distribuindo tarefas e cobrando ação de todos os presentes. - Pelo visto você vai aprender na raça sobre nossos novos agentes...


De repente tudo ficou claro para Sidney e ele entendeu que aquele não era apenas um guia, mas sim o líder máximo da Agência Sonhar.


- Senhor Oneiros! - Um técnico se aproximava esbaforido, nos braços uma prancheta holográfica repleta de informações. - O local é o topo do hospital Santa Catarina e o agente mais próximo é o Antares.


- Muito bem, enviem já a Especialista. - Ele então se voltou para o novato. - Pelo visto não preciso me apresentar certo? Abra bem os olhos e mais tarde, se o mundo não acabar, voltamos a conversar.


A única reação de Sidney àquelas palavras foi um engolir em seco, seguido de um sorriso pálido.


XXX


- Aaaahhhh... Merda... - Afonso se erguia sofregamente, apoiando uma das mãos na pia do banheiro, enquanto mantinha a outra apertando sua cabeça. - Não dava prá inventar algo menos doloroso prá me despertar?


Um minuto de silêncio frio foi a única resposta da bela morena e enquanto o rapaz ia se recompondo, jogando um pouco de água fria no rosto ela finalmente voltou a falar.


- Se já deixou a frescura de lado, podemos nos concentrar no problema atual? - Agora foi a vez dele permanecer quieto, assumindo uma postura mais séria, enquanto ela continuava. - A Sonhar acabou de identificar nova invasão... Segundo os técnicos é uma classe Titã e o pior...


- Pior que um Titã? Por que isso não me surpreende?


- Ele está sobre o Hospital Santa Clara.


Sem falar mais nada Afonso empertigou o corpo e começou a se concentrar. Seu corpo começou a emanar uma luz dourada e de repente suas roupas civis deram origem a um uniforme negro que lhe cobria quase todo o corpo, deixando apenas a cabeça e as pontas dos dedos de fora.


Detalhes brilhantes surgiram nas pontas dos pés, na parte frontal da canela e coxas, bem como no peito e costas dos antebraços. Sobre seu tronco se materializou uma jaqueta quase toda vermelha, com exceção dos ombros e na área ao redor do pescoço que apresentavam um tom acinzentado.


A poucos centímetros de distância do peito a imagem estilizada de uma estrela completava seu uniforme, conforme seus olhos foram cobertos por lentes holográficas escuras, que serviam também para se comunicar com a base da agência Sonhar.


Sem dizer mais nada ele fez seu corpo se transformar em luz, partindo imediatamente para o local indicado pela Especialista que, vendo-se sozinha no banheiro levou um dedo ao seu ouvido esquerdo.


- O Hibernante decolou.


XXX


De volta para a base da Agência Sonhar.


- É isso mesmo novato... Nossos heróis vivem vidas falsas, criadas para proteger suas identidades, evitando assim outra caçada como a de anos atrás... – mesmo que ainda continuasse falando com Sidney, Oneiros não desviava sua atenção das telas holográficas. - Eles ficam em estado “hibernante” só aguardando ser despertado por um agente especial quando necessários. Finalmente...


Na tela maior do local, as linhas de telemetria indicavam os sinais vitais de Antares, além de outras informações, conforme ele finalmente chegava até seu destino.


XXX


- Mas que mer... – Antartes acabara de pousar no teto do hospital, levando imediatamente um dedo até o ouvido esquerdo. – Pessoal? Vocês estão bebendo? Não vejo nenhum Titã aqui... Apenas uma garotinha.


Na sala de comando da Agência Sonhar, uma imensa tela mostrava a telemetria da missão, focada principalmente nos sinais vitais do agente de campo.


Estamos com o áudio na tela Antares...” era um dos técnicos quem se comunicava com o jovem herói “Pode parecer impossível, mas é dessa menina que as ondas titânicas estão sendo emitidas... Tome cuidado.”


- Ah, tá, claro... Ela parece mesmo muuuito perigosa. – ignorando os avisos, ele foi se aproximando da menininha, reparando que ela não deveria ter mais que dez anos e que seu vestido estava com alguns rasgos estranhos. – Oi lindinha... Tudo bem? Não se assuste, eu sou amigo...


Apesar de estar falando com a voz mais calma possível, a garota continuava parecendo assustada, abraçando a si mesma, começando a fazer um “beicinho”, deixando claro, ainda mais pelas lágrimas que começavam a surgir em seus olhos, que ela iria começar a chorar.


- Não... Não... Fica calma lindinha... Não vou te machucar... – mais alguns passos e ele acabou por segurar levemente em um dos ombros da menina, algo de que logo se arrependeu. – Mas o que...


Primeiro foi como se uma pequena cicatriz surgisse, atravessando o rosto da menina, passando pelo pescoço e sumindo dentro de sua roupa. Ela berrou em desespero e logo a cicatriz se abriu.


- Não! – Antares se lançou ao ar, vendo impotente o corpo da criança cair, cortado exatamente ao meio, enquanto uma criatura horrenda surgia, crescendo de forma descontrolada, até cobrir quase todo o teto do hospital. – Merda! Pessoal, estão vendo isso?


O monstro lembrava um gigantesco polvo, com tentáculos repletos de imensos e pontiagudos dentes, alguns se cravando nas paredes laterais do prédio, enquanto uma imensa bocarra se abriu para emitir um urro animalesco.


- Cacete! – Antares estendeu seu punho direito para frente, usando um raio de energia para cortar o monstruoso tentáculo que vinha em sua direção, jogando-o no meio da Avenida Paulista interrompendo assim o trânsito. – Mandem já uma equipe de evacuação! Isso vai ficar feio! E analisem esse monstro, preciso ter certeza de que a menininha está mesmo morta ou se pode ser salva de algum jeito!


Velocistas em ação” o aviso de um dos técnicos da Sonhar foi seguido pelo estranho desaparecimento dos transeuntes, que pareciam ressurgir a alguns quilômetros do local da luta, sem imaginar como haviam chegado ali.


- Ótimo... Garantam que ela também esteja em segurança... - Assim que disse isso Antares mergulhou na direção do monstro, usando seus poderes para tirá-lo do prédio, sem no entanto feri-lo. - Como vai a análise da criatura?


- Vamos lá pessoal! Nosso agente precisa desses dados imediatamente! - Oneiros se voltou para Sidney, deixando mais claro o que estava acontecendo, após notar as dúvidas no rosto do novato. - A “ela” a que ele se refere é sua mãe biológica... Quando os poderes dele se manifestaram pela primeira vez ele destruiu toda sua casa. - Ele percebeu o olhar assustado do outro. - Sim... Às vezes isso acontece, infelizmente mais do que eu gostaria... No caso do Antares, ele e sua mãe foram os únicos sobreviventes, mas ela está em coma desde então.


Sidney ficou de lado, enquanto o líder da agência se afastava por alguns momentos, dando instruções a seus técnicos e conferindo ele mesmo as informações que chegavam a respeito do monstro.


- Enquanto o Afonso mantém sua identidade em segredo... - Parecendo surgir do nada, a Especialista se colocava ao lado do novato. - Com uma família e amigos que são, na verdade, nossos agentes, ele garante a segurança e tratamento da mãe... Por isso ele está atuando mais sério do que de costume, já que a mantemos justamente naquele hospital.


Foi impossível não reparar na beleza da garota, com seus longos cabelos azulados caindo por cima dos ombros, o rosto típico de uma modelo e o uniforme colante que deixava à mostra suas generosas curvas, mostrando linhas brilhantes que pareciam mudar de cor a cada minuto.


- Preciso, aliás que você investigue isso... - Era Oneiros quem que aproximava dos dois. - Estou desconfiado de que nosso velho inimigo possa estar por trás desse ataque e quero evitar uma nova caçada... Descubra se há ligação entre o monstro e o ataque justamente a esse local...


A ordem mal fora dada e a garota desapareceu, logo após as linhas de seu uniforme assumirem uma cor dourada.


- Ela é de longe uma das nossas melhores agentes. - os olhos de Oneiros pareceram brilhar por um momento, deixando claro que seu apreço pela agente ia além do profissional. - Certa vez...


Os alarmes voltaram a tocar, chamando a atenção para a maior das telas holográficas.


- Temos problemas.


De volta à Avenida Paulista, Antares percebia in loco a extensão dos problemas.


- Fala sério! – O jovem herói voava ao redor do monstro que, uma vez nas ruas, fez seus tentáculos se cravarem no asfalto, destruindo os túneis do metro da região. – Prá que que ele quer se prender tanto?


Novo rugido do monstro, seguido de uma balançar de tentáculos que fez Antares abençoar em seu interior os velocistas que haviam evacuado a área, uma vez que um prédio próximo começava a desabar.


Os destroços foram reduzidos a poeira, após nova leva de raios energéticos, causando uma espessa nuvem que quase cobria o monstro, que parecia estar aumentando de tamanho.


- O que que é isso? – O tentáculo que havia sido separado do monstro anteriormente, agora se erguia no ar, tentando atingir o herói, que usou uma rajada mais forte, reduzindo o apêndice a cinzas. – Mas que merda é essa?


Antes de ele poder especular o que estava acontecendo, a criatura atacou em silêncio, conseguindo acertar seu inimigo, que acabou atravessando as vidraças de um prédio próximo, acabando com um escritório de advocacia no processo.


- Certo... – Antares olhava ao seu redor e assim que percebeu onde estava levantou-se lentamente, um sorriso discreto no rosto. – Isso até foi bom prá humanidade... Agora bora voltar prá luta.


Ele saltou pela janela, se jogando na direção do monstro que parecia ainda maior que a última vez que o tinha visto, se desviando dos ataques e acertando doses generosas de rajadas de energia na carne esponjosa, que explodia em bolhas mal cheirosas.


- Mas que nojo! – Ao ser atingido por um jorro de gosma, o herói teve que segurar o lanche que comera antes do cinema. – Ainda bem que meu uniforme é de energia... Não ia ter lavagem que salvasse ele.


De repente um grito de criança chamou a atenção do herói, que acabou atingido no flanco direito, acabando por ser jogado contra o chão, caindo aos pés de um pequeno menininho, que chorava copiosamente.


- Cacete pessoal! – Assim que ergueu um campo de força, protegendo ele e a criança de outro ataque, Antares levou um dedo ao seu comunicador. – Os velocistas tão dormindo? Ainda tem uma criança aqui!


Os golpes iam ficando mais fortes, mas o jovem não deixaria que a criança se ferisse, não importando o quão difícil fosse manter o domo de energia ao redor deles, mas sua concentração falhou quando recebeu uma resposta da Agência.


Nossos aparelhos não indicam uma criança, mas outro Titã”


- Tão de sacanagem comigo né?


Mal acabou de falar e antes mesmo dele se virar, a criança começou a gritar exatamente como a anterior, tendo o corpo retalhado e liberando outro monstro.


Com um crescimento assustadoramente rápido, a segunda criatura logo estava do mesmo tamanho da primeira e ambos se uniram num abraço onde suas carnes começavam a se mesclar, formando toda uma massa disforme e cheia de tentáculos.


- Podem falar... – Antares permanecera estático, sem imaginar como resolver a situação, até que recebeu uma nova chamada da Agência. – Oneiros?


- Sou meu mesmo Antares... – o líder fazia sinal para que todos os presentes ficassem em silêncio. – Os técnicos não estão encontrando nenhum sinal de genes humanos... Quem quer que fez esses monstros pretendia usar o lance das crianças exatamente para que se evitasse destruí-los entendeu?


- Sim... Eu entendi...


Ele nem se deu ao trabalho de desligar o comunicador, deu alguns passos na direção das criaturas, que tentavam acertá-lo sem sucesso devido ao campo de força que ainda mantinha ao seu redor.


Um dos tentáculos se ergueu para um novo ataque, mas não completou o movimento, sendo desintegrado com outra rajada de energia.


Antares abaixou lentamente o punho, ainda com energia crepitando nela, seu rosto permanecia abaixado e sério, não estava totalmente convencido das palavras de seu líder, mas sabia que, ao menos, precisava eliminar as ameaças imediatas.


Ele retornou aos ares, agora destruindo sistematicamente todos os tentáculos, até sobrar uma massa disforme, que tentava desesperadamente mordê-lo. Antares normalmente faria alguma piada, mas a lembrança das crianças o impedia.


Um punho brilhante foi esticado na direção do que restara do monstro, os olhos do herói se estreitavam, a boca se contraiu, se houvesse alguma chance das crianças ainda estarem vivas ele não poderia sacrificá-las.


- Eu não faria isso se fosse você... – Uma estranha voz ressoou à suas costas, fazendo com que ele se virasse, pronto para um novo combate. – Uau... Você tá mais bonito do que eu me lembro...


Antares acabou por ficar estático, admirando a recém-chegada.


O corpo possuía belas curvas e seios de tamanho perfeito, nem grandes demais ou pequenos, os cabelos eram de um verde escuro, doentio, uma máscara lhe cobria todo o rosto, impedindo qualquer reconhecimento.


O que chamava mais a atenção, no entanto, eram os braços.


Extremamente monstruosos, parecendo ser feitos de um tipo de pedra vermelha, terminando em quatro garras disformes que se moviam de forma ameaçadora.


- Não vai querer ferir o bebês da... Mamãe.


- Mamãe? Tá de sacanagem né?


- Preferiria Mulher Monstro? Ou algo mais explicativo? Criadora de Monstros? Mamãe tá de bom tamanho, afinal de contas...


Sem completar a frase, com um único salto, ela cobriu a distância que os separava, passando suas garras perigosamente perto do peito do herói, acertando somente a imagem de estrela que ele exibia.


- Até que você é rápido não é? – Ela ajeitou o corpo, ficando de lado numa pose sensual. - Só precisa aprender a cuidar da retaguarda...


A criatura fez nascer um novo tentáculo, que conseguiu acertar o herói pelas costas, lançando-o de encontro a sua inimiga que aproveitou a chance para desferir um potente soco no queixo dele, que voou de encontro ao monstro.


A bocarra se escancarava, pronta parta se alimentar, mas graças a um fio de consciência, ele acionou seus poderes, assumindo uma forma energética que atravessou o monstro, parando do outro lado da avenida.


Mal conseguiu focar a visão, sua inimiga já se encontrava a poucos centímetros de distância, atingindo-o no queixo, o que fez o jovem se erguer no ar até o quinto andar do prédio mais próximo.


No meio do voo involuntário ela surgiu novamente diante dele, acertando um chute certeiro no estômago e o herói atravessou várias paredes, destruindo tudo que entrava em seu caminho.


Enquanto ele tentava se erguer, empurrando uma pesada mesa que estava encima de seu corpo, a garota surgiu do nada mais uma vez agarrando a mão dele e jogando-o mais uma vez na rua.


Uma cratera se abriu após o impacto do jovem contra a rua logo abaixo, acabando por destruir boa parte da estação do metrô e em meio à dor lancinante que lhe atingia Antares mais uma vez deu graças pela evacuação garantida pela agência Sonhar.


Após balançar a cabeça, procurando se recuperar, ele sentiu uma leve brisa lhe atingir, um vento que antecedeu o golpe que tentava atingi-lo na cabeça, que ele conseguiu evitar por poucos segundos, se transformando em energia e disparando uma rajada contra sua inimiga.


O punho feito de pedra se abriu e um cristal acabou por desviar o raio, destruindo mais uma área do metrô, até que o herói, percebendo que seu ataque não havia surtido efeito, resolveu mudar a estratégia.


Ele voou na direção dela, mais rápido que a reação da mesma, agarrando-a pela cintura e atravessando o teto, indo parar novamente na Avenida Paulista, onde Mamãe conseguiu se libertar após um golpe nas costas do herói.


Os dois pareciam cansados, perdendo uns instantes para recuperar o fôlego, mas logo a garota saltou com os punhos à frente de seu corpo, que foram interceptados por esferas energéticas, criadas pelo Antares pouco antes do impacto.


A disputa permaneceu empatada por longos minutos, mas de repente o monstro, que havia permanecido estático após perder os tentáculos, conseguiu criar um novo, acertando violentamente o herói, jogando-o longe


Ele destruiu a fachada do Hospital em seu “pouso”.


Ainda assim, com ferimentos vertendo sangue por várias partes do corpo o jovem herói tentava ficar em pé.


- Então... - Procurando retomar o fôlego Antares ainda tentou ganhar tempo. – Você... Se vendeu aos invasores? Quanto custou... Para trair a raça humana?


A gargalhada da Mamãe ecoou pela deserta Avenida Paulista, surpreendendo seu oponente, que só podia dar graças por estar finalmente se recobrando, ainda que sentisse um dos dentes amolecidos, um braço provavelmente quebrado e um dos olhos inchado.


- Ah... Fazia tempo que eu não ria tanto... – Ela começou a retirar sua máscara, a fim de coçar um dos olhos e limpá-lo das lágrimas que corriam por sua face. – Com certeza seu chefe não contou nada para você mesmo...


- Eu... – Antares balançava a cabeça rapidamente, algo no rosto da garota era extremamente familiar – Eu te conheço?


- Não se lembra mesmo... Pois agora vou te contar toda a verdade...


Na Agencia Sonhar Oneiros fechava os punhos até quase as unhas fazerem sua palma sangrar. Ele baixou sua cabeça, fechou os olhos por um momento e quando se recuperou apenas sussurrou:


- Desligar. – E no instante seguinte todo o local caiu na mais completa escuridão, com os presentes caídos sem sentidos. – Maldito seja... Pois bem... estou em Xeque.


- Meu nome é Carina... Lembra? – Assim que percebeu que o outro começava a reunir energia nos punhos a garota se sentou na calçada, mantendo seu monstro sob controle e assumindo a posição mais inofensiva que podia. – Sua melhor amiga na escola... Da época do seu... Acidente.


No mesmo instante Antares lembrou-se de chegar em casa, após uma ida ao médico com seu pai, que tentava descobrir por que o garoto estava tendo estranhas e insuportáveis dores de cabeça.


Mal seu pai fechara a porta, as dores voltaram, fazendo com que Afonso se ajoelhasse no chão da sala, as mãos apertando suas têmporas, enquanto pequenos fachos de energia saíam de seus olhos.


Antes de alguém fazer algo, seu pai se aproximar, sua mãe sair da cozinha, ou mesmo Afonso sair correndo dali, os poderes do garoto se manifestaram pela primeira vez.


A explosão pôde ser vista a muitos quarteirões dali.


As lembranças do jovem ficavam confusas, mas tempos depois ele se encontrou com Oneiros, que o convidou a entrar na Agência, prometendo cuidar da única sobrevivente em troca do uso dos poderes dele para defender o planeta.


Desse modo ele se tornou Antares.


- Mas... Eu... – O jovem sentia-se confuso, sua cabeça doía e ele sentia dificuldade em ficar de pé, seria mesmo sua vida uma mentira como a garota estava insinuando? – Não posso acreditar nisso...


- Se vier comigo, meu chefe pode revelar para você toda a verdade e... AAARRRGGGHH!


A garota caiu desacordada, após seu corpo ter sido atingido por trás com uma energia desconhecida e a alguns centímetros dela estava o responsável.


- Oneiros? Que que cê tá fazendo aqui?


- Evitando que essa maluca coloque alguma dúvida na sua cabeça...


- Dúvida ou verdade?


Silêncio.


Antares até conseguiu fechar seus punhos e energizá-los, mas antes mesmo de pensar em agir, Oneiros foi mais rápido.


- Hibernante... Hora de dormir.


No instante seguinte o jovem herói seguia sua inimiga e jazia desacordado no chão.


- E assim mantemos nossas crias sob controle não é... Irmão?


No céu, poucos metros acima de onde estava o líder da Agência Sonhar, flutuava uma estranha massa de energia negra que parecia assumir uma forma próxima da humana.


- Uma sobrevivente? Sério? Confesso que por essa eu não esperava...


- Ah, irmão... Sempre consigo te surpreender não?


- Se queria falar comigo, era mais fácil ligar para meu escritório.


- Mas não seria tão espetacular não é? – A sombra abriu os apêndices que faziam às vezes de braços, mostrando a destruição ao redor. – Seres da nossa grandeza precisam de locais grandiosos para suas reuniões.


- Bem... Então, por favor, não tome mais meu tempo... O que quer?


- Só queria lembrar que o dia do combate final se aproxima... – Agora a criatura apontava para o herói caído. - E espero que isso não seja o que você chama de campeão...


- O tempo está passando...


- Certo... Queria apenas saber se não gostaria de adiantar o combate final... Claro que vai querer mais tempo para preparar... Bem... Isso... – ele apontou mais uma vez para o jovem herói caído ali perto. – E como pode ver, eu também resolvi entrar no seu jogo...


- Jogo?


- Sim... Essa idiotice de criar campeões entre os humanos... Acobertar nossas batalhas pregressas com mentiras e cortinas de fumaça, como na época de... Como era o nome da cidade?


- Chernobyl...


- Isso, isso... Ou quando comecei a caçar seus preciosos “heróis”... A desculpa da vez foi de um inimigo da “realidade inimiga” que havia descoberto a identidade dos seus agentes não é? O pior é que todo mundo cai nessas histórias que você inventa... Fantástico!


- Jura mesmo que tudo isso foi apenas para você vir reclamar novamente de como estou conduzindo nossa disputa? Ou queria apenas dar a sugestão ridícula de a adiarmos?


- Esses eram apenas assuntos que eu sabia que a resposta seria negativa... Na verdade queria mesmo avisar que resolvi seguir seu exemplo, apesar de estar achando extremamente tediosa... Essa garota, a Mamãe, é um dos vários experimentos que estou conduzindo... Você criou “heróis”, nada mais lógico que eu crie vilões... Isso posto, com licença...


Mamãe e os monstros criados por ela foram desaparecendo pouco a pouco em nuvens negras deixando para trás uma destruição que ocuparia o líder da Agência Sonhar por um bom tempo.


- Marque esse dia meu adorado irmão... – Agora era o criador da vilã quem falava. – Hoje é o dia em que nasce Nêmeses, o criador de monstros...


Segundos depois Oneiros estava sozinho.


Ele olhou para os lados, então focou no herói caído e começou a caminhar lentamente em sua direção.


Havia muito a ser feito.


XXX


- Então... A tal de Mamãe conseguiu atacar a Agência, derrubou todo mundo e te obrigou a ir a campo? Tudo isso sozinha?


- Acredito que tem mais algum jogador nesse tabuleiro Especialista... Mas no momento o que interessa é que as obras na Avenida Paulista já começaram e todos acreditam que o heroico Antares salvou o dia... Eu só precisei ajudá-lo a voltar para a base e se recuperar dos ferimentos.


- Já coloquei o Hibernante para dormir... Amanhã Caio e Afonso vão visitá-lo, “lembrando-o” de que ele passou mal após o filme e foi direto prá casa... Seus pais vão confirmar.


- Excelente... Pode descansar então Especialista... Assim que puder me entregue um relatório da missão.


Só então Oneiros se voltou para seu visitante.


- Então Sidney... O que achou? Esse foi um dia típico na Agência Sonhar... Acha que pode se ajustar ao nosso ritmo? – ele então estendeu a mão direita na direção do jovem à sua frente. – O que me diz?


Foram necessários poucos segundos para que Sidney apertasse a mão que lhe era oferecida.


- Estou ansioso para começar senhor!


- Perfeito! Amanhã nos encontramos mais uma vez... – O mais novo agente da Sonhar começou a sair do escritório de Oneiros, mas este ainda tinha uma última palavra. – Sidney?


- Sim senhor...


- Seja bem vindo a um novo mundo...


O jovem esperou se afastar do escritório e, com receio de que pudesse haver algum telepata na área, apenas se permitiu um rápido pensamento “Estou dentro senhor N” e logo depois seguiu seu caminho apressadamente.


Alheio a esse acontecimento, quando finalmente se viu sozinho, Oneiros se voltou para a janela, na verdade um holoquadro, onde várias paisagens iam mudando a cada intervalo de quinze minutos.


Em sua mente ele repassava os passos após a partida de seu irmão, Nêmeses, quando só lhe restava reescrever as memórias do desacordado Antares, levá-lo para a área médica da Sonhar e fazer com que seus demais agentes acreditassem que haviam sido alvo de um ataque externo.


Agora o inimigo, que já era perigoso, oferecia um desafio ainda maior, o que acabou fazendo com que Oneiros desse graças pela disputa que ele e seu irmão cósmico realizavam, de planeta em planeta, querendo ver quem criava os mais poderosos peões, resultando ora na vitória de um, ora do outro, mas evitando que os dois imortais acabassem tomados pelo tédio.


O sorriso involuntário ainda marcava seu normalmente sisudo rosto e sua mente começava a fazer os planos necessários, tentando prever as ações de seu irmão.


O devaneio foi interrompido pelo som de alarmes.


- Senhor Oneiros... – um comunicador do tampo da escrivaninha do escritório. – Um homem que dispara raios de energia está mantendo vários reféns no Cristo Redentor.


- Certo... Chame Isabella e mande-a despertar o Patriota... Já estou indo. – Após esfregar os olhos demonstrando certa irritação, um traço humano que ele acabou emulando, Oneiros deixou sua sala. - Até que não demorou muito... Irmão... Vejamos o que vem a seguir.


Fim?

29 de ago de 2012

Marry e Melody - Já sei o nome dele...



Marry e Melody é publicado as quartas-feiras no UNF!

19 de ago de 2012

Ultimate UNF: Elektra #15


Enquanto Elektra enfrenta desafios no Inferno, especialmente a preparação pro seu julgamento, a Trindade Chinesa e a Tríade Japonesa debatem o ato de Amaterasu, que, agora, declarou guerra ao reunir um novo exército de deuses, pra assim, reaver os tesouros imperiais!

Elektra   Capítulo 15     

Kusanagi   Kannazuki     

Por Pedro Caldeira

K’uen-Luen, Mansão dos Imortais

A Grande Montanha.

Ânimos exaltados. O que seria um concílio de paz se tornou, momentaneamente, uma crise entre os seres mais poderosos da China e do Japão.

De um lado, a Trindade, formada pelo Venerável Celeste de Origem Primeira, pelo Senhor do Céu e pelo Venerável Celeste da Aurora. Do outro, a Tríade, incompleta, composta por Susanoo e Tsuki-
Yomi.      

Eles debatiam sobre a traição efetuada pela terceira integrante, a deusa do Sol Amaterasu, responsável, agora, pela desconfiança, e pela possibilidade do término de um pacto milenar.

A crise aumentou com a descoberta de que um mortal estava envolvido.      

A Arma Letal, um guerreiro produzido pelo pacto para preservar, e manter em ordem, a paz.      

- Um exército de apenas um homem! – exclamava Susanoo, conhecido por seu caráter variável, que ora se manifestava por gestos de perversidade, quando sua alma brutal o guiava, ora por atos benfazejos, quando sua alma angélica intervinha.      

- Não queira justificar o ato de sua irmã. – disse o Venerável Celeste de Origem Primeira.     

- Não ouse você falar em traição. Seu imperador clamou pelo auxílio de um mortal! A China também transgrediu as regras!      

- Pelos cavalos vivos oferecidos à mim, encerrados na estrebaria instalada no átrio do meu templo em Kadono – interrompeu o quase inerte Tsuki-Yomi – O que presenciamos agora é o que sempre evitávamos: um novo conflito entre o Japão e a China, cujas consequências podem extinguir o mundo.      

Todos os presentes se renderam às sábias palavras do mais novo filho de Izanagi.      

- Se ambos os lados demonstram traição, cabe aos dois lados reverter a situação. Precisamos nos unir novamente e buscar a melhor maneira para encerrar essa investida. Não podemos imaginar qual o destino caso Amaterasu reúna as Insígnias Imperiais Japonesas. Muito menos, se o mortal realizar o feito.      

O Venerável Celeste de Origem Primeira se levanta.      

- Meu jovem, congratulações pelas judiciosas palavras. Como deter a deusa e o mortal?      

- Parem! – interrompeu o deus das planícies salgadas - Estamos falando de duas mulheres, 

Venerável Celeste de Origem Primeira. Amaterasu e Elektra, a Arma Letal.      

Todos se calam. É inaceitável que um humano adquira os Tesouros do Japão. Pior ainda, é se esse humano for... uma mulher.      

- Essa foi a vontade do nosso deus Pan Gu e das suas Três Divindades. As palavras deles são leis. 
– explicou o Venerável Celeste de Origem Primeira.      

- Então não se ofenda, Venerável Celeste de Origem Primeira – replicou Susanoo – Precisamos de uma solução. Abra a votação, e já garanto que meu voto é a morte! Até porque Amaterasu já está no Japão, reunindo um novo exército.

Di Yu     

Os pés já ardem pelo chão cálido. O calçado resiste, mas não se sabe até quando. O suor escorre pelo corpo, bailando a cada articulação. Os cabelos, encharcados, e a garganta, seca.     
Assim, Elektra segue sua subserviente missão ao Imperador Ch’in: resgatar mais um artefato místico. Para isso, ela precisou morrer nas mãos do próprio soberano.      

E depois de passar pelo Deus dos Muros e Fossos, a ninja busca Rei-Yama, o primeiro dos chamados Chetien-yen-wang, ou, Reis dos Dez Tribunais. Isso porque existem dezoito infernos, distribuídos por dez tribunais de que dependem, sendo que cada inferno se destina a carregar delitos bem definidos.      

Elektra precisa chegar à cidade de Fong-tu, onde estavam os palácios dos Reis, os diversos tribunais, os lugares reservados aos suplícios e as casas em que moram funcionários, satélites infernais e almas à espera de momento propício para a reencarnação.      

Mesmo sendo acompanhada de perto e secretamente pelo dragão cego de um olho, a assassina ia pela tortuosa trilha.      

Sem perceber, também, que um homem a seguia.      

Ela não imaginava perigos, não até que encontrasse seu julgador, o primeiro Rei-Yama, que selaria sua vida.      

Ou morte.      

E ao longe ela avistou uma tétrica construção, de onde se levantavam as diversas edificações que albergavam no seu interior, o que ela tanto procurava.      

Ao encerrar tamanho vislumbre da cidade, girou o corpo para trás, munida das armas brancas e encarou aquele ente.      

Pronta para o ataque.     

Pronta para matar, caso fosse possível.      

Em Di Yu, povoado de justiceiros implacáveis, há lugar, entretanto, para a comiseração. As diversas regiões infernais são percorridas, incessantemente, por uma divindade compassiva e misericordiosa.      

- Tome. – diz o homem, ao entregar um objeto que contém um algo pastoso.     

Hesitante, Elektra recusa a oferenda, ao ver aquela figura de bonzo, cingido por fulgurante coroa ritual, que empunha na mão direita a vara metálica repleta de anéis sonoros, e na esquerda, segura a pérola preciosa cujos clarões iluminam as rotas infernais.      

Mas algo naquele olhar do desconhecido a acalma. Ela se sente segura, como há tempos não se sentia. Suas mãos, trêmulas e molhadas, seguram a peça.      

Com a cabeça, faz sinal de agradecimento.      

- Eu sou Ti-Tsang Wang-P’u-Sa e tenho, por atribuição, salvar as almas pecadoras.      

- Eu não sou pecadora. Vim a serviço do Imperador.      

- Não me interessa, nem me importa. Para mim, você está morta e veio para Di Yu porque mereceu.      

- O Imperador me matou para que eu pudesse realizar um feito que...      

- Enquanto vivo, eu era um jovem brâmane, que fiz voto de salvar todas as criaturas mergulhadas no pecado. Consagrei várias existências sucessivas à realização do voto. Adquiri tais méritos graças ao meu espírito de sacrifício, que por fim a mim foi confiada, pelo Augusto de Jade, a guarda de todos os deuses e homens, para que não os deixe ter mau nascimento. Por isso, depois da morte de qualquer pessoa, nenhum dos parentes, amigos ou, simplesmente indivíduos dotados de coração piedoso, deixa de me invocar, para que eu vá em socorro da alma do falecido.      

Encantada com as palavras, Elektra bebe o conteúdo.      

- Tenho que chegar à cidade de Fong-tu.      

- Antes, você precisa ser julgada pelo Primeiro Rei do Inferno. Ele examina os atos de sua vida passada e, se for o caso, encaminha aos outros tribunais, para que seja punida.      

- Quantos são?      

- Dez. O primeiro desses reis é o supremo senhor do mundo infernal e, ao mesmo tempo, presidente do primeiro tribunal. Fica sob a dependência direta do Augusto de Jade e do Grande 
Imperador do Pico Oriental. Dentre os nove restantes, oito são encarregados de apenar as almas criminosas. Assim, o segundo Rei aplica pena aos intermediários desonestos e aos médicos ignorantes; o terceiro pune os mandarins perversos, falsários e caluniadores; o quarto castiga os avarentos, o moedeiros falsos, os negociantes desonestos e os blasfemadores; o quinto pune os homicidas, os incrédulos e os luxuriosos; o sexto, os sacrilégios; o sétimo é reservado a quem violou sepultura e vendeu ou comeu carne humana; o oitavo recebe os que faltaram à piedade filial; o nono pune os incendiários e tem como anexo a Cidade dos Mortos por Acidentes; e o décimo, finalmente, se encarrega da Roda da Transmigração, e cuida para que a alma que deve reencarnar se acomode no corpo que lhe for designado.      

- Quem executa os suplícios dados como pena às almas?      

- Os Reis do Inferno dispõem de numerosos satélites, que se encarregam de executar fielmente as suas sentenças. Os satélites são representados sob a forma de personagens de torso nu, com duas bossas na testa, bossas que efetivamente são chifres, e armados de clavas, piques de ferro ou tridentes.      

- Esses castigos...      

- Os blasfemadores têm a língua arrancada; os avarentos e os mandarins prevaricadores veem-se obrigados a engolir ouro e prata fundidos. As almas mais culpadas são atiradas em montanhas e caem pesadamente na ponta acerada de sabres fincados ao chão, ou acabam mergulhadas, até o pescoço, em azeite fervendo, ou, então, amarradas a enorme barra de ferro aquecido ao rubro, pulverizadas por pesada mó, serradas em duas, reduzidas a pedaços, etc.      

- Não compreendo. Serei julgada por quê? Afinal, minha morte foi encomendada pelo Imperador Ch’in...      

- Só o primeiro Rei poderá responder suas dúvidas, mulher. E, consequentemente, dar o castigo adequado a cada delito seu.      

- Não sei o que fazer.      

- Como foi seu julgamento pelo Deus dos Muros e Fossos?      

- Não houve interrogatório. Entreguei-lhe oferendas como me ordenou o Deus da Porta, e assim me deixou seguir passagem.      

- Curioso. A alma, depois de haver abandonado o invólucro de carne, conserva, entretanto, a aparência que o corpo assumira em vida, e é conduzida perante o Deus dos Muros e Fossos, que a submete ao primeiro interrogatório e a conserva consigo durante 49 dias, deixando-a a seguir em liberdade, ou punindo-a com pena da canga ou com bastonadas, conforme o que o morto fez durante a vida. Findo o período, o Deus dos Muros e Fossos encaminha a alma à presença do Rei-Yama, que passa a julgá-la, examinando o registro em que se encontram inscritas as ações boas e más, praticadas pela alma. Se for o caso, manda levá-la perante o tribunal encarregado de castigar o crime de que se tornou culpada, como contei.      

- Então o Rei-Yama não tem os registros sobre meus atos em vida.      

- Tem.      

- Como, se não fui julgada?      

- Graças ao Juiz do Averno, sempre acompanhado pelo Julgador que Vê Tudo e pelo Julgador que Cheira Tudo. Seguirei com você até a cidade de Fong-Tu. Caso suas palavras sejam verdadeiras, não será merecedora de castigos ou suplícios.

Ilha Isukushi, Japão     

Rio Uoto.      

Festa. Comemoração.      

Revigorada, Amaterasu celebra, acompanhada pelos Sete Deuses da Sorte.      

Agora, ela está disposta a investir ostensivamente contra Elektra. Ela já está consciente de que, enquanto a Arma Letal estiver viva, seus planos de reaver o Tesouro Imperial correm sérios riscos.      

Ela está tão cega pro esse desejo que não se incomoda, nem se preocupa, com o sumiço de seus irmãos Susanoo e Tsuki-Yomi.      

Nem com a passageira sensação de tranquilidade.      

Amaterasu, entre as numerosas divindades, é quem domina a mitologia japonesa. É adorada como deidade espiritual e avó da família imperial mais do que como astro. Saúdam-na batendo palmas, ao romper do dia.      

Quem pousou ao seu ombro esquerdo para rapidamente levantar voo foi Yata-Garasu, um corvo de várias patas, mensageiro da deusa solar.      

Ele levou consigo o tesen, com o intuito de sanar qualquer dano sofrido nos últimos combates.      

Seu corpo divino volta a arder em chamas. O Magatama bilha com vida.      

A peça japonesa, em solo japonês, com o sol japonês.      

Seus cabelos sacodem ferozmente, cortando o céu como labaredas.      

Neste momento ela se revigora. Graças à ajuda dos deuses que sempre se apresentaram leal, independente da situação.      

Hotei, que se distingue dos outros pela sua grande barriga, que não deixa que o quimono se feche. Isso não significa que seja guloso; pelo contrário, é um símbolo de satisfação, do bom feitio e da grandeza de alma.      

Juronin é o deus da longevidade. Aparece sempre na companhia de um grou, uma tartaruga ou um veado, cada qual simbolizando a velhice feliz. Tem barba branca e, geralmente, traz uma vara ou um bastão sarado com um rolo de papel preso que contém a sabedoria do mundo. Ele gosta muito de saquê, mas nunca se embebeda.      

Fukurokuju tem uma cabeça muito comprida e estreita, e a boa sorte que representa combina longevidade com a sabedoria. O seu corpo é tão pequeno que a cabeça é muitas vezes representada de maior tamanho do que as pernas.      

Bishamon é considerado o deus da prosperidade. Sempre veste uma armadura e traz uma lança. Na outra mão mostra um pagode em miniatura. Esses dois objetos revelam que Bishamon combina o zelo missionário com atributos guerreiros.      

Daikoku protege os camponeses e é um deus alegre e bem-humorado. Traz, às costas, dentro de um saco, um malho que tem o poder de satisfazer desejos exprimidos pelos mortais, e costuma se sentar sobre dois fardos de arroz. Às vezes podem-se ver ratos comendo dos fardos de arroz, mas Daikoku é tão rico e humorado que não se importa com isso.      

Ebisu, um outro deus da sorte, é um grande trabalhador e um exemplo do labor honesto. É o padroeiro dos mercadores e pescadores, mas nos seus atributos, apenas este último aspecto está representado; de fato, surge sempre acompanhado por uma vara de pesca.      

E finalmente Benten, a única deusa no meio do grupo. Está associada ao mar e muitos dos santuários que lhe são consagrados situam-se em ilhas ou perto do mar. Nos seus retratos ou estátuas, esta conexão se revela muitas vezes quando a figura de Benten aparece montada ou acompanhada por uma serpente marinha ou por um dragão. Ela também representa as artes e os tipos de comportamento mais femininos. Entre todos os instrumentos musicais, prefere o biwa, de corda, cuja forma se assemelha a um alaúde. Não é, portanto, de estranhar que Benten surja muitas vezes relacionada com o lago que tem o nome, e cuja forma faz lembrar o instrumento, o lago Biwa.      

- Estamos aqui para servi-la, Amaterasu. Juramos lealdade eterna, e por isso, jamais a deixaremos.      

- Agradeço por isso, Ebisu. Todos serão recompensados quando eu recuperar o que me é de direito. Quero que saibam que enfrentaremos pesada oposição, inclusive, por parte de Susanoo e de Tsuki-Yomi.      

- Como podem seus irmãos traí-la, Amaterasu? – questiona Bishamon.      

- Ora, é sabido que meu irmão sempre me invejou, pelo fato de meu pai, Izanagi, ordenar que eu administrasse a planície celestial, ao me entregar um riquíssimo colar de pedras preciosas. Para Tsuki-Yomi, meu pai confiou o reino da noite. E para Susanoo, os mares. Ele também é o Deus do Trovão, da Tempestade e da Chuva. Eu e Tsuki-Yomi obedecemos a ordem, mas Susanoo não partiu, permanecendo onde se encontrava, gemendo e chorando. Izanagi perguntou-lhe o motivo de tantas lamentações e Susanoo declarou que há muito alimentava o desejo de ir em visita ao reino da finada mãe. O deus Izanagi se aborreceu e o expulsou. Então, meu irmão expressou o desejo de se despedir de mim, antes de descer ao mundo subterrâneo.      

- Mas por que a deusa Izanami sucumbiu ao Inferno? – perguntou Juronin.      

- Depois de receber a incumbência de consolidar e fecundar a terra movediça, meus pais deram nascimento às múltiplas ilhas que constituem o Japão e aos numerosos deuses, como o do Vento, da Árvore, da Montanha... O último que nasceu foi o deus do Fogo. Ao vir ao mundo, queimou minha mãe e lhe causou cruéis sofrimentos. Do que regurgitou, antes de morrer, nasceram outros deuses. Izanagi chorou amargamente a morte da esposa, e de suas lágrimas nasceu a deusa do Regato Murmurante. Tomado de verdadeira fúria contra o filho que causara a morte de minha mãe, Izanagi puxou a espada e cortou a cabeça do recém-nascido. Das gotas de sangue, que, deslizando na lâmina, tombaram no chão, nasceram oito deuses diferentes e, das diversas partes do cadáver, oito outras divindades, que simbolizam as diferentes montanhas.      

- Por favor, Amaterasu, conte sobre as intrigas com Susanoo.      

- Meu irmão subiu ao céu para me ver, mas fez com tamanho rumor, sacudindo montanhas e rios, causando terremotos e abrindo precipícios, que eu julguei de bom alvitre adotar certas precauções a fim de recebê-lo. Pus às costas um enorme carcás, repleto de agudas flechas, e coloquei diante de mim o pesado arco. Quando lhe perguntei a razão de ter vindo, Susanoo me respondeu que não alimentava nenhuma intenção inconfessável. Vinha tão somente se despedir, pois desejava, em seguida, encaminhar-se para o longínquo país em que se encontrava nossa mãe. Eu perguntei onde estavam as boas intenções que ele proclamava. Susanoo propôs que cada um desse filhos ao mundo: os dele seriam meninos, com o que provaria a sinceridade de seus propósitos. Eu empunhei o sabre de meu irmão, quebrei-o em três pedaços e, depois de mastigá-los, fiz sair da boca um leve nevoeiro, que deu nascimento a três deusas. Susanoo exigiu que eu lhe entregasse os cinco colares de pedras preciosas e, depois de moê-los a dentadas, soprou leve nevoeiro, de onde nasceram cinco divindades masculinas. Então, eu declarei que eram meus filhos, porque nasceram dos meus cinco colares. Meu irmão ficou muito contente com a vitória que perdeu o controle e, se deixando levar pelo incontido entusiasmo, destruiu os arrozais preparados por mim, entupiu os canais de irrigação e esparramou imundícias no templo construído para a festa das primícias. Eu desculpei todas as malvadezas de meu irmão, que continuou na senda criminosa. Certo dia, eu estava tecendo as roupas divinas na casa sagrada. Susanoo abriu um enorme buraco no telhado e atirou pra dentro um cavalo branco de grandes malhas pretas. A terrível aparição provocou tremenda confusão, tanto assim que uma das tecelãs se feriu com a naveta e morreu da infecção consequente. Aterrorizada, me escondi na gruta rochosa do céu, cuja entrada barrei, e restou ao mundo cair em espessas trevas.      

- Até que as 800 miríades de deus se reuniram...      

- O final da história todos sabemos, inclusive, a punição de Susanoo. Como condenação, ele teve que pagar pesada multa, ter as unhas dos dedos das mãos arrancadas, a barba e o bigode cortados, e a expulsão do céu, Hotei. Mas estou de volta. Mais forte do que nunca. Mais preparada e confiante de que, assim que recuperar o Magatama, a Kusanagi e o Yata-no-Kagami 

[1], vou me vingar de meu irmão e dominar o mundo.      

- Para onde iremos agora, Amaterasu?      

- Garyô tensei. [2] Vamos para Izumo. De lá, invocarei o resto dos deuses que, 
obrigatoriamente, vão contribuir no meu ato. Em seguida iremos até a província de Ise, onde está o meu mais importante templo.      

- O que faremos lá?      

- No meu santuário se conserva o espelho sagrado, que é o meu xintai, ou seja, o objeto por onde meu espírito pode entrar para assistir às cerimônias de culto ou escutar as preces que me dirigem os fiéis. É o espelho octagonal, o mesmo que foi empregado para me tirar da gruta onde me escondi.      

- Mas... então o Yata-no-Kagami está no seu templo? Por que não o pegou logo?      

- Estou proibida. Só que agora não devo subserviência a ninguém ou a nenhum pacto. Tenho que recuperar a peça antes que aquela maldita mortal o faça.

Notas     

Kannazuki - Em japonês “Outubro” – mês em que, segundo a lenda, todos os Deuses se reuniram no Grande Templo de Izumo.   

[1] Yata-no-Kagami - O Espelho, artefato imperial japonês.   

[2] Garyô tensei - Literalmente “finalizar os olhos da pintura de um dragão”. Refere-se 
genericamente ao toque final que falta para a conclusão de uma coisa.   

Ilustração de Amaterasu - Feita por Zé Fernandes! (contatos pelo warbrj@yahoo.com.br).